terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

#CRIT - Filme "Nebraska"

Às vezes o amor se esconde no mais improvável dos lugares.




       Lindo. Poderia parar a crítica apenas nessas poucas palavras e fazer vocês ficarem curiosos e tempestuosos para assistir o mais rápido possível essa história encantadora e emocionante. Mas como o intuito é dissertar, vamos a diante.

     "Nebraska" retrata uma história 100% original. Certamente, nunca assisti um filme com um roteiro tão diferente e simples, o que faz tudo ficar muito interessante. Woody Grant (Bruce Dern) é um idoso chato, rabugento, alcoólatra e de poucas palavras, que acredita ter ganhado a quantia de 1 milhão de dólares. Infelizmente, isso não passa de um engano. Woody recebeu pelo correio uma carta que nada mais era do que uma propaganda de uma empresa, afirmando que se o número dele fosse sorteado e se ele entregasse os cupons necessários, poderia retirar o prêmio maravilhoso. Porém, Woody não dá a mínima para os pormenores da propaganda e, apesar dos protestos de seus filhos David Grant (Will Forte) e Ross Grant (Bob Odenkirk) e de sua mulher, a tagarela e incansável Kate Grant (June Squibb), ele está destinado a sair da pequena cidade de Billings, no estado de Montana e viajar até Lincoln, no estado de Nebraska, para adquirir seu prêmio. Nem que seja andando. Após atormentar tanto a sua família, David resolve dar uma chance pro velho pai e o leva para viajar. No decorrer da mesma, por conta de um imprevisto, os dois são obrigados a parar na antiga cidade natal de Woody e de sua mulher, onde reencontram antigos amigos, antigos rivais e muitos parentes que ao saberem da grande notícia do prêmio de 1 milhão, tentam se aproveitar da situação. Ah sim, os filhos tentam avisar que o prêmio é falso, mas isso acabou parecendo, aos olhares alheios, uma desculpa para não ficarem visados.

     Incrivelmente bem feito, "Nebraska" é a maior prova de que uma grande história pode ser contata mesmo fora dos grandes centros econômicos e turísticos. Saindo da linha Nova York - Los Angeles, no caso dos EUA.  Na minha opinião, isso deveria ser intensamente incentivado no panorama brasileiro. Onde o país "oficial" mascara completamente o país "profundo". Por que não unir os dois? Quantas grandes histórias foram contadas no interior do Piauí por exemplo? Ou no norte do Mato Grosso? Já passou da hora de explorar o Brasil não-carioca. Mas voltando ao filme, o que mais emociona, sem dúvidas é a maravilhosa relação de amor do filho com o pai, que mesmo sendo insuportável em certos momentos, nunca é abandonado ou deixado de lado. Uma incrível lição do nosso dever em estar sempre em contato com os familiares. Uma lição de superar as diferenças. Uma lição de altruísmo. "Nebraska" vai tirar lágrimas de você rapidamente, se você tiver propensão para chorar. E também vai te dar vários sorrisos em cenas muito bem pensadas e, apesar do humor negro, hilárias.

     O trabalho de atuação de Bruce Dern é estonteante. O tempo que ele levou pra decorar as falas não deve ter sido maior do que meia hora, porque realmente não tem muitas. Mas o que encanta sinceramente é a sua expressão facial. "Um olhar diz mais que mil palavras", certo? "Nebraska" é mais um grande filme para a carreira do ator, sempre brilhante e, como disse Leonardo DiCaprio ao receber o Globo de Ouro esse ano, uma inspiração para os jovens atores. A verdadeira graça do filme está em June Squibb, que interpreta a personagem com muita facilidade e que com um discurso puritano, acaba entregando ser na realidade bem promíscua. O que é muito divertido.



       Com seis nomeações ao Oscar 2014, sendo elas: filme, diretor, ator principal, atriz coadjuvante, roteiro original e fotografia, não tenho certeza se vai faturar algum prêmio. Na realidade acredito que não. Mas foi muito bem nomeado. Merecidíssimo. A direção de Alexander Payne ficou superior a de vários nomes indiciados na mesma categoria. Pegou objetos e paisagens um tanto quanto simples e cabais e ao colocá-los por certos ângulos, conseguiu torná-los belos e artísticos. Não há reclamações a serem feitas.

     Se for pra resumir: vale cada segundo do seu tempo precioso. Uma história singela, mas que toca o coração. Um filme de interior, com pessoas pobres, pessoas feias, pessoas velhas, sem o menor ânimo pra vida, sem a menor vontade de conversar e de tirar os olhos da TV e regado a muita cerveja. Não é o melhor filme do ano, mas merece ser notado, porque mesmo sendo inteirinho em preto e branco, podemos ver com muita clareza a necessidade de amor, de respeito e de tolerância na vida familiar.


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